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Mario Jonas Nicocelli

COMO O PROTESTANTISMO CONSTRÓI E CONHECE A REALIDADE
Parte I do resumo de um capítulo do livro religião e repressão (Rubem Alves)  
O presente texto se propõe a fazer uma explanação entre fé emocional e fé racional. O autor começa colocando o ponto de vista e as diferenças entre as expressões de um recém convertido e uma pessoa mais antiga na fé. Segundo Rubem Alves os dois tem discursos diferentes, o primeiro, emocional, revela o que se passa na alma, o outro, no entanto expressa uma racionalidade, uma cosmovisão da realidade, sendo assim sempre que a emoção é expressada, revela-se certa irracionalidade e o falso, já na manifestação da racionalidade, habita a verdade.Como afirma Dewey,
‎"Se tomarmos a palavra sonho com uma certa realidade, não será demasiado afirmar que o homem, exceto nas situações ocasionais de trabalho e lutas reais, vive num mundo de sonhos antes que de fatos, e um mundo de sonhos que é organizado em torno de desejos cujo sucesso e frustração forma sua própria essência" [1]
Logo a fé não deve ser baseada em emoções e sim na racionalidade em busca de inteligência, e onde houver tal racionalidade haverá também a experiência emocional que a sustenta. No entanto fé e razão não estão opostas. Como afirma Durkheim as categorias fundamentais do pensamento e, conseqüentemente, da ciência são de origem religiosa. Todavia a racionalidade é uma máscara da experiência fundamental que resolve o problema vivido pela experiência emocional.
Alvez afirma que esta é uma experiência não só religiosa, mas da própria linguagem, onde a mesma revela e oculta simultaneamente. Sendo assim a razão está para afirmar o que de fato existe, criando certa claridade para explicar e compreender, totalizando assim, sua verdade. Construindo uma zona de claridade, paralela a obscuridade “proposital”, conflitos valorativos exigem racionalização, criando cegueira em uns e curiosidade em outros, já ao lado emocional é mais viável desconhecer a conhecer. A racionalidade tenta aniquilar a experiência fundadora da fé (neste caso conversão). Para Rubem a conversão implica em fé e dúvida, sendo dúvida o terror. Terror este que se perde na racionalidade, todavia tal racionalidade não deve ser vivida como conhecimento absoluto, isto a transformaria em dogma.
Para o novo convertido o Cristo é tão somente, o símbolo dos sentimentos de alegria e paz que sua nova escolha lhe proporciona, estes são a essência base da experiência religiosa. Sendo assim tal experiência é fruto não do pensar ou do fazer, mas simplesmente do sentir. Logo o ser divino é puramente seu próprio sentimento, se tornando assim uma experiência não teológica, mas antropológica. Para o autor tal afirmação seria basicamente o que afirmou kierkegaard verdade é subjetividade. Caímos então em um paradigma que o próprio Sorem cita numa ilustração. [...] Havia dois homens, um adora o Deus verdadeiro com o coração falso, o outro o Deus falso com o coração verdadeiro [...]. Tais afirmações implicam na infinidade do objeto seja ele qual for. Desta forma o homem nunca sentirá o divino a menos que sua paixão seja infinita. Neste caso a fé não esta fundada em um objeto, mas sim no infinito de sua paixão. Ora se esta estivesse fundada em um objeto histórico o efeito seria maior que a causa, e um ponto de partida histórico para o eterno nada mais é que um interesse histórico.
Como afirma Paul Tillich a fé é simplesmente fé, não dirigida, absoluta, sendo assim o converso só tem as emoções que lhe garantem e afirmam o divino, sua experiência subjetiva lhe garante  a objetividade do ser divino, partindo de sua experiência ele pode afirmar “eu me sinto salvo”, todavia sua experiência de fé não comporta a afirmação, “logo eu sou salvo”. Embora que tal afirmação seja feita, esta é carregada com dúvidas, pois duvida e fé são inerentes, embora exista um abismo entre paixão subjetiva e experiência objetiva.
Sendo assim tudo que é objetivo e verdadeiro é também finito, portanto nada tem a dizer ao coração, a objetividade nada tem a explanar sobre o sentido da vida, porém a incerteza e a dúvida estão unidas por um risco apaixonado. Temos assim objetivamente as incertezas e os riscos da fé. Deste modo afirmar a fé, seria o mesmo que dizer: “eu aposto que” ao invés de “eu sei que”, inibindo assim minhas decisões, uma vez que todas as dúvidas chegarão ao fim. Agarrei-me então ao objeto da fé deixando que ela decida por mim. Tal improbabilidade é o ponto central da fé. Todavia arriscamos assim a vida na mesma.
Percebemos assim que a fé exerce certa limitação no que tange determinado objeto de conhecimento, Uma vez que Deus não pode ser compreendido, pois se assim fosse deixaria de ser Deus, e não sendo Deus o objeto da experiência, só nos restam as incertezas e a infinita paixão. Sendo igualmente a fé, a linguagem que a comunica é tão somente ambígua, indireta e subjetiva como o objeto da fé, pois o que se tem a comunicar é transcendente a realidade. No entanto não podemos reduzir tal linguagem ao mutismo, pois a mesma se expressa por meio de confissão, a experiência está além da linguagem verbal, tornando assim a comunicação com o divino algo único e totalmente pessoal, isto transcende o poder da linguagem.
No entanto o fato de que a mensagem baseada no conhecimento não tem caráter absoluto, tudo não passa de meros palpites, baseados em novas descobertas, mesmo sendo palpites e não tendo caráter absoluto, não deixam de ser verdades. Ricoeur nos atenta alegando que nossa tentação nada mais é que a busca por conhecimento, na tentativa de nos igualarmos a Deus. Na conquista de conhecimento, os mesmo se tornam nossos ídolos se tornando posteriormente nossos senhores, caímos assim no dogmatismo, como afirma Hegel:
O dogmatismo como forma de pensar, seja no conhecimento ordinário ou no estudo da filosofia, é nada mais que a opnião de que a verdade consiste numa preposição, que é um resultado fixo e final, e que é conhecida diretamente.[2]
Sem dúvidas para o protestante, ter certeza da salvação é algo indispensável, todavia não há formas para se verificar os sentimentos que habitam a alma. São prisioneiros da subjetividade. Logo tal confissão é real para aquele que assim se expressa, deste modo o  converso não sabe no que de fato crê, no entanto a comunidade de fé sabe, inicia-se então o processo de ‘discipulado’ que baseia-se não na expressão, mas sim na impressão a ser causada na comunidade. Chegamos assim a conclusão que a bíblia nada mais é que, a confissão de um povo sobre sua experiência com o divino e uma expressão cultural.


[1] Dewey. Jhon. Reconstruction in Philosophy, 1962, 7.
[2] G. W. F. Hegel,  The Phenomenology of mind, 1967, p. 99

2 comentários:

Anônimo disse...

Contribui muito na minha pesquisa. Deus te abençoe.

JOSE CAMARGO CAMARGO disse...

Passa tantas pessoas por nossa vida que algumas acabam "vazando" pelo roto da peneira. Apos tomar conhecimento dessa figura importante, e tão traída pelos seus, que me sinto culpado de mão ter lido nada dele antes. Mas, antes tarde do que nunca. Á você Rubens Alves, (in memoriam) seguramente voltaras para o segundo tempo nessa terra.
Evangelho de São João 5: 28 e 29 28 Não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos os que estão nos túmulos memoriais ouvirão a sua voz 29 e sairão, os que fizeram boas coisas, para uma ressurreição de vida, os que praticaram coisas ruins, para uma ressurreição de julgamento. Com perdão desse sacrilégio; sua volta sera para ser reconhecido sua importância, sem contraditório de seus inimigos.

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